sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um tal salve geral




Era Maio, Outono. Na verdade não faz diferença se é Outono, porque aqui na  quebrada a única mudança climática visível são as chuvas de Janeiro, que  inundam casas e destroem sonhos, além de móveis e vidas. Ou quando a polícia aparece arrebentando tudo que encontra pela frente, inclusive costela de negô
trabalhador e bolso de traficante besta que fica dando sopa.
Naquela madrugada o meu celular me acordou as três e vinte e cinco da manhã. Era o Cabeça convocando-me para uma reunião extraordinária. Anotei apressadamente o endereço, com uma caneta velha, na palma da mão, escolhi na gaveta de cuecas uma arma a esmo e quando me dei conta, tinha na cintura uma 357 cromada com cabo de borracha, com cinco janelas e oitos balas Rolling point no tambor, nem precisei levar reservas no bolso. Me desloquei da minha quebrada, para outro extremo da cidade sem, sequer, fazer a higiene matinal.
Levei cerca de uma hora e meia para chegar ao local combinado. No caminho, enquanto dirigia meu Wolks, lembrei-me da vida simples que levava no sertão; lá eu acordava cedo para ajudar meu pai cuidar da terra seca, tirava leite da vaca, fazia o queijo, caçava, com o Lambão, meu cachorro, o tatu para preparar o cozido e quando dava tempo ia à escola aprender o beabá. Lembrei que nas festas de São João eu me fartava, fosse das brincadeiras, das comidas, da simplicidade dos meus conterrâneos. Acordei daquele devaneio, após levar uma fechada de um taxista. Dirigi por mais um tempo, porém, não consegui mais me concentrar nos únicos mementos da minha vida no qual eu realmente fui feliz e quando me dei conta, estava no endereço. Permaneci alguns segundos dentro do carro, acendi um cigarro e após fazer o sinal da cruz, desci, fechando a porta cautelosamente.
As luzes dos postes que iluminavam as ruas estavam estouradas, os cachorros quietos. Ouvia-se lá longe o barulho dos ônibus, motos, carros rasgando a avenida para levar pessoas ao trabalho. A favela sinistra causava-me calafrios, o silêncio me deixava cabreiro. Dei um passo à frente e logo estava numa viela escura. Ainda na entrada, avistei um bando de homens com jaquetas, outros com gorros e
logo que me avistaram gritaram:
- Quem vem lá!
- Sou eu, Lambecosta
-Salve!
- Tá salvado – respondi enquanto dava aquela que, supostamente, seria a minha
última tragada.
Cumprimentei os manos, que assim como eu, estavam armados como se fossemos partir pra uma guerra. Fui apertando a mão de um por um, até aqueles com os quais não tinha muita afinidade, pois, a vida do crime não permite que você se desfaça de um irmão por uma treta mal resolvida. Após as boas vindas,
esperamos mais uma rapaziada chegar. Tinha muita gente, pessoas de muitos lugares da leste, da sul, da norte, da oeste, da baixada, do interior entre outros lugares dos quais nunca ouvi falar e ou imaginava que existia. De repente, entre os murmúrios ouvimos um pigarrear. A função aquietou-se, para o Cabeça desenrolar a idéia. Fiquei surpreso, até comigo mesmo, ao perceber o quanto éramos obedientes àquela liderança. Se no meu tempo de escola, os professores tivessem o respeito que aquele cara de cara redonda tinha, eu teria aprendido bem mais que manusear um fuzil, misturar drogas, assaltar... Iniciou-se a preleção. O Cabeça, com a emoção à flor da pele começou a nos explicar; Foi dado o aval para que revirássemos a Cidade de São Paulo de cabeça para baixo, que matássemos tudo que se mexesse, que não deixássemos nenhuma viatura sem perfuração, a ordem era que acabássemos com a Cidade e com todos os caras da lei, fossem na ativa ou não, corruptos ou não, jovens ou não, fardados ou não. De soslaio vi um camarada, atrasar o passo como se quisesse recuar, pensei em fazer a mesma coisa, porém, acho que todos pensaram em fazer a mesma coisa. O Cabeça "vestia a camisa do crime" e talvez percebendo que a rapaziada não estava preparada para ação, silenciou-se, passou a mão na cabeça, acendeu um cigarro e esbravejou:
- Cês tá com medo, mano? Tão com dó, destes caras – deu uma tragada no
cigarro enquanto analisava o efeito das suas palavras em nós e continuou – eles tiveram pena quando fizeram vocês engolir maconha? Tiveram compaixão da mãe de vocês quando levaram vocês pra cadeia e deixaram vocês dias comendo rango azedo, tiveram pena de seus filhos enquanto esculacharam vocês na frente deles,
quiseram saber da história de vida de vocês, quiseram saber porque entramos nesta vida, Porra, quantos de nós não trabalhava e formos forçados a assinar um B.O que não era nosso, quantos amigos inocentes não "subiram" na mão destes vermes, eles tiveram pena de alguém.

Olhei para o lado e vi alguns dos irmãos limpando os olhos, enquanto outros sacudiam a cabeça em sinal de apoio ao que o líder falava. Aquelas palavras penetraram no coração de alguns, outros, como eu iríamos para aquela guerra sem saber a real razão, acho que por não ter nada pra fazer da vida. Que vida?
A persuasão do Cabeça foi tão forte, em muitos ali presentes, que o colocaria na presidência da república caso ele saísse candidato por um destes partidos de gente imunda que vira puta em troca de alguns milhões.
A rapaziada, após a injeção de ódio, sacou seus revolveres, como cavaleiros medievais empunhavam as espadas e saiam à luta em defesa do Rei. Os contaminados pelo ódio puseram suas toucas, entram em seus carros, subiram em suas motos e partiram como soldados sem causa, pro ataque.
Na quebrada não existe Outono, mas naquele dia, mais de mil Flores caíram, umas assassinadas em confronto com a polícia; enquanto outras foram vítimas de execução sumária e outras de execução covarde. Outras simplesmente caíram porque estavam no lugar errado. Naquele dia de Maio, muitas folhas caíram em sepulturas de jovens, inocentes e não, no tumulo de pai de família. Muitas flores se misturaram com lágrimas de filhos, de viúvas, de esposas e que perderam seus maridos numa guerra de ninguém. Na quebrada as chuvas de Janeiro se antecederam e veio de surpresa inundar coração e destruir lares. Chuva de Sangue,
chuva de flores, chuva de lágrimas e o vento soprou as imundices do sistema misturadas às folhas de Outono, para debaixo do tapete. Naquele dia de Outono voltei pra minha terrinha, onde um dia, fui feliz de verdade.

PS: toda identificação, seja de quem for, contida neste texto não passará de mera coincidência.

7 comentários:

Edcarlos jesus disse...

Parabéns Marcos lopes. Cara fico muito loco vc e um escritor esplêndido dessejole muito sucesso. Parabéns gostei muito

Ricardo Feijão disse...

Caralho velho... Muito bom. Continue sempre assim, inspirado para escrever belos contos... Adorei.
Forte abraço.

Elaine Lima disse...

Tão distante e tão próximo, história de pessoas reais cujo seus atores não aparece na novela das nove

Victória de Sá Prosdocimi disse...

Ótimo Marcos parabéns e muito sucesso!

Drica de Santi disse...

Excelente texto. Coloca a gente dentro da cena, bem naturalista. É a ficção mostrando a realidade...

Elaine Cuencas disse...

Marcos... como o seu texto está bom! Lembro do primeiro que li, há tanto tempo. A diferença é muito significaativa. Sua vida, suas experiências, sua visão de mundo, crítica, reflexão... está tudo nele. Parabéns!

Dani:) disse...

Parabéns,muito bom!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Um tal salve geral




Era Maio, Outono. Na verdade não faz diferença se é Outono, porque aqui na  quebrada a única mudança climática visível são as chuvas de Janeiro, que  inundam casas e destroem sonhos, além de móveis e vidas. Ou quando a polícia aparece arrebentando tudo que encontra pela frente, inclusive costela de negô
trabalhador e bolso de traficante besta que fica dando sopa.
Naquela madrugada o meu celular me acordou as três e vinte e cinco da manhã. Era o Cabeça convocando-me para uma reunião extraordinária. Anotei apressadamente o endereço, com uma caneta velha, na palma da mão, escolhi na gaveta de cuecas uma arma a esmo e quando me dei conta, tinha na cintura uma 357 cromada com cabo de borracha, com cinco janelas e oitos balas Rolling point no tambor, nem precisei levar reservas no bolso. Me desloquei da minha quebrada, para outro extremo da cidade sem, sequer, fazer a higiene matinal.
Levei cerca de uma hora e meia para chegar ao local combinado. No caminho, enquanto dirigia meu Wolks, lembrei-me da vida simples que levava no sertão; lá eu acordava cedo para ajudar meu pai cuidar da terra seca, tirava leite da vaca, fazia o queijo, caçava, com o Lambão, meu cachorro, o tatu para preparar o cozido e quando dava tempo ia à escola aprender o beabá. Lembrei que nas festas de São João eu me fartava, fosse das brincadeiras, das comidas, da simplicidade dos meus conterrâneos. Acordei daquele devaneio, após levar uma fechada de um taxista. Dirigi por mais um tempo, porém, não consegui mais me concentrar nos únicos mementos da minha vida no qual eu realmente fui feliz e quando me dei conta, estava no endereço. Permaneci alguns segundos dentro do carro, acendi um cigarro e após fazer o sinal da cruz, desci, fechando a porta cautelosamente.
As luzes dos postes que iluminavam as ruas estavam estouradas, os cachorros quietos. Ouvia-se lá longe o barulho dos ônibus, motos, carros rasgando a avenida para levar pessoas ao trabalho. A favela sinistra causava-me calafrios, o silêncio me deixava cabreiro. Dei um passo à frente e logo estava numa viela escura. Ainda na entrada, avistei um bando de homens com jaquetas, outros com gorros e
logo que me avistaram gritaram:
- Quem vem lá!
- Sou eu, Lambecosta
-Salve!
- Tá salvado – respondi enquanto dava aquela que, supostamente, seria a minha
última tragada.
Cumprimentei os manos, que assim como eu, estavam armados como se fossemos partir pra uma guerra. Fui apertando a mão de um por um, até aqueles com os quais não tinha muita afinidade, pois, a vida do crime não permite que você se desfaça de um irmão por uma treta mal resolvida. Após as boas vindas,
esperamos mais uma rapaziada chegar. Tinha muita gente, pessoas de muitos lugares da leste, da sul, da norte, da oeste, da baixada, do interior entre outros lugares dos quais nunca ouvi falar e ou imaginava que existia. De repente, entre os murmúrios ouvimos um pigarrear. A função aquietou-se, para o Cabeça desenrolar a idéia. Fiquei surpreso, até comigo mesmo, ao perceber o quanto éramos obedientes àquela liderança. Se no meu tempo de escola, os professores tivessem o respeito que aquele cara de cara redonda tinha, eu teria aprendido bem mais que manusear um fuzil, misturar drogas, assaltar... Iniciou-se a preleção. O Cabeça, com a emoção à flor da pele começou a nos explicar; Foi dado o aval para que revirássemos a Cidade de São Paulo de cabeça para baixo, que matássemos tudo que se mexesse, que não deixássemos nenhuma viatura sem perfuração, a ordem era que acabássemos com a Cidade e com todos os caras da lei, fossem na ativa ou não, corruptos ou não, jovens ou não, fardados ou não. De soslaio vi um camarada, atrasar o passo como se quisesse recuar, pensei em fazer a mesma coisa, porém, acho que todos pensaram em fazer a mesma coisa. O Cabeça "vestia a camisa do crime" e talvez percebendo que a rapaziada não estava preparada para ação, silenciou-se, passou a mão na cabeça, acendeu um cigarro e esbravejou:
- Cês tá com medo, mano? Tão com dó, destes caras – deu uma tragada no
cigarro enquanto analisava o efeito das suas palavras em nós e continuou – eles tiveram pena quando fizeram vocês engolir maconha? Tiveram compaixão da mãe de vocês quando levaram vocês pra cadeia e deixaram vocês dias comendo rango azedo, tiveram pena de seus filhos enquanto esculacharam vocês na frente deles,
quiseram saber da história de vida de vocês, quiseram saber porque entramos nesta vida, Porra, quantos de nós não trabalhava e formos forçados a assinar um B.O que não era nosso, quantos amigos inocentes não "subiram" na mão destes vermes, eles tiveram pena de alguém.

Olhei para o lado e vi alguns dos irmãos limpando os olhos, enquanto outros sacudiam a cabeça em sinal de apoio ao que o líder falava. Aquelas palavras penetraram no coração de alguns, outros, como eu iríamos para aquela guerra sem saber a real razão, acho que por não ter nada pra fazer da vida. Que vida?
A persuasão do Cabeça foi tão forte, em muitos ali presentes, que o colocaria na presidência da república caso ele saísse candidato por um destes partidos de gente imunda que vira puta em troca de alguns milhões.
A rapaziada, após a injeção de ódio, sacou seus revolveres, como cavaleiros medievais empunhavam as espadas e saiam à luta em defesa do Rei. Os contaminados pelo ódio puseram suas toucas, entram em seus carros, subiram em suas motos e partiram como soldados sem causa, pro ataque.
Na quebrada não existe Outono, mas naquele dia, mais de mil Flores caíram, umas assassinadas em confronto com a polícia; enquanto outras foram vítimas de execução sumária e outras de execução covarde. Outras simplesmente caíram porque estavam no lugar errado. Naquele dia de Maio, muitas folhas caíram em sepulturas de jovens, inocentes e não, no tumulo de pai de família. Muitas flores se misturaram com lágrimas de filhos, de viúvas, de esposas e que perderam seus maridos numa guerra de ninguém. Na quebrada as chuvas de Janeiro se antecederam e veio de surpresa inundar coração e destruir lares. Chuva de Sangue,
chuva de flores, chuva de lágrimas e o vento soprou as imundices do sistema misturadas às folhas de Outono, para debaixo do tapete. Naquele dia de Outono voltei pra minha terrinha, onde um dia, fui feliz de verdade.

PS: toda identificação, seja de quem for, contida neste texto não passará de mera coincidência.

7 comentários:

Edcarlos jesus disse...

Parabéns Marcos lopes. Cara fico muito loco vc e um escritor esplêndido dessejole muito sucesso. Parabéns gostei muito

Ricardo Feijão disse...

Caralho velho... Muito bom. Continue sempre assim, inspirado para escrever belos contos... Adorei.
Forte abraço.

Elaine Lima disse...

Tão distante e tão próximo, história de pessoas reais cujo seus atores não aparece na novela das nove

Victória de Sá Prosdocimi disse...

Ótimo Marcos parabéns e muito sucesso!

Drica de Santi disse...

Excelente texto. Coloca a gente dentro da cena, bem naturalista. É a ficção mostrando a realidade...

Elaine Cuencas disse...

Marcos... como o seu texto está bom! Lembro do primeiro que li, há tanto tempo. A diferença é muito significaativa. Sua vida, suas experiências, sua visão de mundo, crítica, reflexão... está tudo nele. Parabéns!

Dani:) disse...

Parabéns,muito bom!